Dois anos e meio em Espanha, Pamplona – Navarra

Historia interessante. Dois anos e meio em Navarra, possivelmente a melhor época da minha vida num local calmo, tranquilo, e onde conheci muitas pessoas e pude aprender um idioma perto da lingua portuguesa.

Eu tinha 21 anos quando me mudei para Espanha. Depois de uma fase não muito boa em Portugal onde algumas pessoas só me queriam ver na merd@@ e parecia que as coisas iam de mal a pior, recebi um convite, na altura de duas pessoas que considerava minhas amigas (Sameiro Pereira e Cristina Melo). Nunca tinha viajado na vida e nunca tinha pensado alguma vez sequer em sair do meu país. Aceitei e, como não tinha mesmo nada a perder, la me meti no comboio e rumo a Pamplona. Umas boas horas de viajem desde a Gare do Oriente até á estacao de Pamplona para depois apanharmos um taxi para Navarra, mais propriamente Sarasa – Guipozcoa, País Basco.

Segundo o que me tinham dito, era para trabalhar com uma senhora portuguesa que tinha um restaurante, só que o local para onde eu iria trabalhar era muito mais que um simples restaurante, era um bar nocturno e na verdade precisavam de uma pessoa com experiência para trabalhar atrás de um balcão num bar, só que na altura eu não sabia muito bem o que ia encontrar.

Lembro-me exactamente como foi quando cheguei naquele dia já de noite ao Hostal Sta. Monica. Haviam dois espaços, um era restaurante só que estava fechado para remodelação e o outro era bar. Alguns clientes tomavam a sua bebida e algumas senhoras esperavam sentadas numas cadeiras altas pensando eu que eram também clientes, só que não. Apresentações feitas e já depois de saber finalmente o que iria fazer, ia trabalhar como barmen, é me oferecido um quarto para descansar depois de uma longa viajem e onde pude rever um amigo meu que ja conhecia a algum tempo e também estava lá.

Era Inverno. Lembro-me que no dia seguinte quando acordei nem queria acreditar que tinha saído de Portugal. Todos os dias era servido o pequeno-almoço entre as 8 e as 10 da manha a todos os funcionários que trabalhavam neste local. A cozinha era enorme e, nas traseiras, em dias melhores, era feitos churrascos e no Verão era possível apanhar banhos de Sol como se de uma praia se tratasse.

Hostal Sta. Monica, 2009

Como era normal, eu queria explorar os arredores, só que os arredores eram montanhas, umas poucas casas á volta, e a vista era excelente. Quando nevava, era possível ver todas estas montanhas vestidas de branco. Foi a 1ra vez na minha vida que eu tinha visto neve ao vivo, e a 1ra vez que ao sair daquele hostal dou uma queda nas escadas, mas nada grave, lol.

Sarasa

Pamplona ficava a alguns bons quilometros de distancia de Sarasa, pelo que não era possível ir todos os dias ou frequentemente ao centro da cidade. Eu, o Fabio, a Cristina, a Sameiro e a Mafalda, só podíamos ir todos juntos ao centro da cidade quando era necessário, se apanhássemos um autocarro, que só passava de hora-a-hora, ou então tínhamos de pedir aos nossos patrões, o Sr. Carlos, e a D. Mónica que nos desse boleia. E acreditem, a D. Mónica tinha pé pesado e eu tinha sempre medo de andar com ela de carro.

SarasaTraseiras do Hostal Sta. Monica

Quando precisávamos de algo mais simples, não havia necessidade de ir ao centro de Pamplona. Havia ali perto um posto de abastecimento, que hoje em dia está abandonado, assim como o hostal, e era então assim que íamos buscar as coisas que precisávamos. Foi nesse mesmo local onde eu comprei o meu próprio telemóvel de rede espanhola “Movistar”. Havia um senhor que trabalhava neste sitio e conhecia bem o hostal e os donos, sabia muito bem que tipo de bar era aquele mas nunca o frequentava por razoes óbvias. Mas era um tipo porreiro e bastante simpático.

O hostal era o que era, mas nem tudo era mau. Tinha as suas coisas boas e outras menos boas, mas nada que nos colocasse em perigo, ate porque a D. Mónica conhecia quase todos os ciganos de Pamplona (logo o local estava “protegido”), e este bar era um ponto de paragem para os camionistas portugueses que também não eram assim tantos os que lá paravam mas de vez em quando la aparecia uns para tomar um copo. Eu era sempre o empregado de balcão ou barman das 20h até as 4 da manha do dia seguinte. Não era pago, mas ainda assim eu fazia bastante dinheiro. Depois conto como.

Uma vez que NINGUÉM era pago, não havia ordenados, os donos deste bar sempre que podiam e quando nós pedíamos, tínhamos sempre o que precisávamos ou queríamos. Eu pedi na altura dinheiro ao meu patrão para um telemóvel e mais tarde uma PlayStaion e no dia seguinte eu tinha as coisas á minha espera na recepção ou á porta do meu quarto. Nunca me foi negado nada. O que eu queria, tinha.

Os meus 22 anos foram celebrados ali. Nunca na minha vida eu tinha tido uma festa de aniversario TAO grande como quando completei os meus 22 anos. O refeitório foi todo enfeitado, balões, bolos, musica, convidados que vieram de toda as parte de Pamplona e eu nem os conhecia, vieram familiares dos donos, amigos deles, as senhoras que trabalhavam naquele local apareceram todas, e posso dizer que estavam naquele refeitório á vontade umas 20 a 30 pessoas, só para o meu aniversario. Não parece muita gente mas ainda eram bastantes pessoas, e no final, toda a gente me cantou os Parabens. Foi excelente.

Infelizmente o Hostal Sta. Mónica já não estava muito bem financeiramente, e as pessoas que la trabalhavam começaram a procurar outros caminhos e trabalhos, e eu presenciei o momento em que algumas pessoas estavam interessadas em comprar este bar para então assim o poderem transformar em restaurante para os camionistas que passavam lá com frequência. Ao longo de relativamente 7 meses, o local foi ficando sem ninguém, vazio, e consequentemente teve de fechar as portas ao publico. Como eu ainda era das poucas pessoas em que os donos tinham muita confiança, eu acabei por fazer deste sitio a minha propria casa com a autorização dos donos até que eu decidisse sair de Espanha ou procurasse um local mais adequado para viver, como um 4rto alugado ou assim.

Entretanto consegui arranjar um local onde comecei a trabalhar como operador gráfico, fazendo cadernos, livros, impressões, etc., e aí sim, comecei a ser pago normal como qualquer outro funcionário com um trabalho legal. O dono desta gráfica por acaso era amigo da dona do bar e foi uma grande ajuda naquele tempo.

A mim o que me assustava mais, era o facto de ter de vir para este local á noite para dormir. Não tinha luz na fachada do bar, e era um desafio cada vez que metia a chave á porta para entrar. Felizmente havia uma cadela nas traseiras que sabia quem eu era e como era de raca estilo cao policia eu estava protegido, e sim, se eu dissesse á cadela para se atirar a alguem, ela fazia-o sem hesitar. Era uma cadela muito simpatica, grande e estava sempre feliz. Nao sei o que lhe aconteceu depois do local ter sido abandonado completamente.

Chegou uma altura em que a única pessoa a entrar e sair daquele local, era eu. Havia um posto de abastecimento mais abaixo das montanhas e de vez em quando lá ia eu de bicicleta até lá para tomar um café ou comprar tabaco. As maquinas do tabaco e de snacks do bar ja estavam quase vazias, ja nao havia fornecedores a dar manutenção e a abastecer as maquinas, e então eu tinha de me desenrascar de qualquer maneira.

Ao fim-de-semana eu ficava de folga. Via televisão, jogava, ia para o 4rto do meu patrão porque ele já não vivia lá, e os quartos em cima estavam todos vazios, eu podia escolher todos os dias dormir num 4rto diferente, mas tinha o meu. Mas quando chegava a noite, raramente eu tinha de descer ate á cozinha para fazer o meu jantar ou almoço, aquele local era muito susceptível para assaltos e qualquer pessoa á noite, sem muito esforço, poderia lá entrar. Algo que acabou por acontecer. Mas só me dei conta na manha seguinte quando desci as escadas e vi as maquinas de snacks abertas, nem estavam arrombadas, mas de certeza que alguém entrou porque no dia anterior estavam fechadas. E eu nem dei por nada.

Foi então nessa altura, que eu tive de pegar no dinheiro que tinha e decidi voltar para Portugal. Já não havia nada que me prendesse ali, os donos quase não apareciam lá, e mais tarde ou mais cedo alguém iria tomar conta deste sitio para então poderem abrir ou remodelar e fazer o tal tao esperado restaurante, que foi um projecto que também não chegou a acontecer. E o resultado infelizmente foi aquele que podemos ver nas imagens acima.

Só para salientar que, estas imagens foram sacadas do Google Maps. Como devem imaginar, eu não poderia actualmente viajar até Espanha para poder tirar estas fotos, mas adorava fazer um documentário sobre este local que tem muito ainda para contar.

Resumindo: este foi sem duvida um dos melhores locais onde tive a oportunidade de viver durante 2 anos e meio, conhecer outras pessoas, outra cultura, de certa forma viver em paz e tranquilidade ainda que houvessem altos e baixos, onde pude ganhar alguma experiência de vida, e muito sinceramente não me importava de voltar a viver esta fase de novo.

Se tudo correr bem, irei fazer uma outra parte que irá contar como me dei em Navarra e Pamplona, o que confesso que já não me lembro de muita coisa, mas o que me lembrar irei contar no futuro.

E assim foi mais uma aventura da minha vida!

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