A minha vida nem sempre foi um mar de rosas e já passei por algumas situações um pouco constrangedoras que nunca me passariam pela cabeça alguma vez vir a passar.

Ficar uma semana nas ruas de Lisboa foi uma dessas situações que felizmente consegui me livrar com alguma ajuda. Por causa de um conflito na casa onde estive durante algum tempo, e de certa forma onde todos os que lá moravam terem de sair da mesma, eu fui a pessoa que teve menos sorte. Enquanto o casal da casa mais a filha tinham para onde ir, eu obviamente não podia na altura mudar-me com eles. E então fui obrigado a pegar em algumas coisas minhas e de um momento para o outro encontrei-me numa situação em que não sabia muito bem o que fazer. Fiquei na rua.

A família que eu tinha naquela altura pouco ou nada me ligava e nao havia um contacto entre nós muito forte, amigos não tinha muitos, pessoas que me pudessem acolher temporariamente não havia, e a unica coisa a que eu me podia agarrar era simplesmente ao fundo de desemprego que eu tinha naquela época. Só que em Portugal, os vencimentos e as ajudas do estado, subsídios, etc, recebem-se ao final do mes, e então teria de esperar pelo menos mais 1 ou duas semanas para receber o dinheiro a que tinha direito e posteriormente arranjar um quarto para alugar.

Na altura conhecia uma pessoa que sempre que podia ia me visitar no local onde eu morava antes, (era também a minha farmacêutica cada vez que eu tinha dor de dentes), levava-me remédios, ou tabaco quando eu tinha aqueles meses mais difíceis, ás vezes comida, fazia-me companhia, etc. Ou seja, ela não tinha muitos amigos, eu também não, e podia-se dizer que eramos o par perfeito na altura como Bonnie & Clyde. Com a diferença que não fazíamos merda nem prejudicávamos ninguém.

O dia D.

O dia D foi quando então um certo dia tive que sair da casa onde morava, já tinha uma ideia do que ia acontecer, e no meio do medo (porque o local onde eu morava era de risco), tive de sair a passos largos e rápidos daquela zona onde vivia. Levava comigo apenas um saco de roupa, nem era uma mochila, tinha comigo alguns utensílios de higiene básicos e pouco mais. Era de noite. Passei por sítios como Sacavém, Prior Velho, Bairro da Encarnação, Aeroporto de Lisboa, até que por fim cheguei ao centro da cidade de Lisboa.

Na altura eu ainda tinha telemóvel e alguma carga, tinha muitos contactos mas nenhum deles podia me ajudar, até porque a maioria era pessoas que tinham as suas vidas lixadas, não como a minha naquela altura, mas tinham. Outras sofriam de distúrbios emocionais e faziam-se passar por coitadinhos e desgraçados, e não podiam ajudar muito.

Como eu tinha uma pessoa amiga com quem falava bastante e me conhecia minimamente, a “farmacêutica”, decidi que pelo menos a ela deveria dizer alguma coisa e contar a minha situação, poderia até não poder ajudar, mas pelo menos ficava a par da ocorrência. Esta chamada telefónica foi mais difícil do que eu poderia imaginar. Eu a contar a minha situação, a outra pessoa a ouvir, eu a chorar por um lado, e ela a chorar do outro. Tipo, eu já sabia que ia ficar na merda porque quem fica nas ruas de Lisboa, geralmente e dificilmente consegue sair, por isso já tava naquela, isto não vai correr nada bem.

Eu não tinha mau aspecto de todo, mas tinha de arranjar forma de comer, de me lavar, carregar o telemóvel porque precisava, e até mudar de roupa. Mesmo com esta situação, tentei sempre estar o mais apresentável possível. E onde eu poderia fazer isso? Onde podia eu cuidar de mim sem dar muita “cana”? No aeroporto de Lisboa.
Era o único local seguro onde eu podia usar o WC’s para fazer a barba, lavar-me, mudar de roupa, e finalmente dormir. Sim, as cadeiras do aeroporto de Lisboa dantes eram muito confortáveis.

Durante os dias, tinha de ir procurar trabalho, mendigar por comida nos restaurantes (nesse aspecto tive sorte porque a maioria dava comida, outros simplesmente negavam e nem um pão me davam), e ao mesmo tempo procurava um sitio para ficar porque ainda tinha direito ao fundo de desemprego, só que o problema é que eu recebia no final desse mesmo mes, e o dinheiro que eu iria receber era mais que suficiente. Que remédio tinha eu senão esperar. pois nenhum senhorio iria colocar alguém dentro de uma casa ou quarto sem garantias minimas. Obvio.

Eu e esta minha amiga passámos dias e dias a tentar procurar por um sitio onde a pessoa a quem contactávamos fosse um pouco benevolente e desse o beneficio da duvida para que eu pudesse entrar num quarto o mais rápido possível. Mas a maioria das respostas eram negativas.

Havia alturas em que fazíamos o “trabalho de busca” por turnos. Quando ela estava de folga ou podia, dirigia-mo-nos a um parque ali perto do aeroporto, o Vale do Silencio, e ela passava os dias comigo e ás vezes noites e então trocávamos: um dormia e o outro tentava contactar números que viessem no jornal ou na internet. Na altura a internet não era tao vasta como agora e haviam muitas limitações. Depois, passadas umas horas voltávamos a trocar. Tinha de ser assim, era exaustivo para ambos. E ainda que não fosse um assunto que lhe dissesse respeito, ainda assim ajudou e fez mais que a minha família ou outras pessoas que se diziam ser minhas amigas.

Durante um par de semanas, eu senti na pele um pouco daquilo que pessoas em condicoes piores que eu sentiam ao estarem na rua ou viver nela. Se não houver alguém que de a mão, tas literalmente lixado. E para mim era uma situação muito, mas muito difícil e não conseguia ver melhorias. Felizmente, ao contrario de outras pessoas, durante esse tempo especifico, nunca tive problemas com a autoridade ou com drogas e coisas do género. Felizmente, posso dizer que tive uma excelente educação. Lá nisso os meus pais não falharam de todo.

Um dos episódios que eu me lembro perfeitamente, foi o facto de uma vez ter andado tanto, mas tanto, que os meus pé¦s doíam, mas doíam de tal maneira que uma segurança de um estacionamento dentro das instalações do aeroporto veio ter comigo, perguntou se eu estava bem, e depois de eu contar a minha historia, ela pegou no seu almoço e deu-me. Ainda quis chamar a ambulância, mas não foi necessário. Hoje em dia, e até mesmo naquela altura, eu adorava poder voltar a ver esta pessoa e agradecer. Quem sabe, um dia!

Duas semanas, são sempre duas semanas. São 14 dias a receber ajuda, a mendigar, a querer mudar as coisas para melhor, e na maioria das vezes uma pessoa se sentir frustrada, cansada, e chorar em silencio porque no fundo sente-se que o futuro é extremamente inserto, e eu não queria acabar daquela forma. Mas o tempo e a ajuda que eu recebi mudou completamente as coisas nos dias seguintes.

Finalmente onde ficar!

Esta amiga minha que na altura me acompanhava, depois de imensas chamadas feitas, fez uma para um senhor que vivia em Alcântara. Chamava-sem Lourenço, era um professor de musica e adorava esparguete com atum. Daí o meu gosto por esta especiaria, por um lado por ser barato, e outra por ser rápido de confeccionar! Muito Gourmet! Lol

Ficou então combinado eu ir ver o quarto e falar com este senhor sobre a minha situação. Depois de tudo visto e até gostar da casa, expliquei qual o meu estado actual na altura e perguntei se podia entrar na casa e ocupar o quarto de imediato porque de momento estava na rua e só recebia no final do mes e muito sinceramente as condições em que eu me encontrava não era das melhores.
O “bacano” olhou para mim e fez uma cara de quem realmente não sabia se eu era de confiar. Uma vez mais, voltei a insistir, e a garantir que dentro de um par de dias ele iria ter o dinheiro em mãos a que tinha direito e entrei num acordo. Uma vez mais, olhou para mim, e finalmente disse: “Que seja! Mude-se para cá e depois logo vemos…”

Foi o dia mais feliz da minha vida! Finalmente eu sairia das ruas, e era menos uma preocupação que eu tinha em cima de mim. Entretanto, a minha amiga que me tinha acompanhado e que preferiu ficar á porta do prédio (acho eu), assim que desci e lhe dei a noticia ficámos ambos contentes, e felizes com uma vitoria e aliviados de uma luta que durou quase 2 semanas. entretanto ela ia me visitando para ter a certeza que estava tudo bem e as coisas na minha vida foram surgindo de uma forma positiva e tudo foi andando na sua normalidade.

Depois mais tarde entrei num curso, conheci a mãe da minha filha e consegui ter uma vida um pouco melhor daquela que tinha. Mas isso fica para outro artigo.

É obvio que estou bastante agradecido a pessoas especificas, e a outras que mal ou bem ainda tentaram mas nunca fizeram ou conseguiram fazer nada por mim. E espero não voltar a passar por esta situação, porque hoje em dia não ha necessidade disso, e actualmente, embora não tenha nada, ao mesmo tempo tenho o que preciso, ou neste caso, o que mereço.

Foi uma aventura, um pesadelo ao mesmo tempo que podia ter corrido mal, mas ca estou para poder contar a historia, e superei uma vez mais e com ajuda, outra fase de tantas que me foram ocorrendo ate hoje.

Esta é uma historia pessoal, verdadeira, e espero que no fundo seja uma lição para outras pessoas, e para algumas entenderem quem fui e quem sou hoje! 🙂

Tudo se supera com as pessoas certas ao lado e forca de vontade! 😀

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Blog De Um Tuga

Criador do blogue "blogdeumtuga.com" fala e escreve sobre as suas experiências pessoais e aborda alguns assuntos de interesse dependendo do seu ponto de vista e opinião pessoal. Fotógrafo amador e blogger português. WordPress site designer. Locutor / Broadcaster.

2 comentários

helena · 8 de Abril, 2020 às 02:02

wow sem palavras.. a blast from the past 🙂

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