Quando eu comecei a trabalhar, um dos trabalhos que eu fazia com mais frequência era publicidade porta-a-porta. Eu tinha bastantes opções, mas quando eu morava em locais onde a deslocação era um problema ou quando outras escolhas de trabalho não apareciam, distribuir publicidade era a unica opção e maneira de se ganhar algum dinheiro.

Vivi em locais como Olivais, Moscavide, Sacavém, Sintra, Reboleira, Massamá e estas eram algumas das zonas que, por muito que se procurasse trabalho, não havia. E então, lá tinha eu e muitos como eu que se fazer á vida e ir distribuir panfletos, listas telefónicas e outros tipos de publicidade pelas caixas de correio.

Para quem não sabe muito bem do que se trata, eu explico o que é a tao odiada publicidade porta a porta. Odiada por quem a distribui e também por quem a recebe. É um tipo de trabalho onde temos que nos levantar cedo e onde um condutor nos vai buscar a casa ou a um sitio previamente combinado, para depois nos levar a um armazém onde recarregar uma carrinha com papel que nunca mais acaba, ou então para nos levar até ao local ou á cidade estipulada naquele dia para fazermos a distribuição.

Geralmente são sempre formados grupos de 4, 5 ou mais pessoas para que o trabalho seja concluído o mais depressa possível nas áreas estipuladas para aquele dia, pode levar mais dias também.
Por norma, ou de um modo geral, os distribuidores são sempre adolescentes, são poucos os que trabalham neste ramo com mais de 18 anos. A maioria dos membros que fazem parte da equipa, veem de famílias carenciadas, problemáticas, moram em bairros sociais nada seguros, e alguns têm problemas com drogas e já tiveram problemas com a autoridade (policia).

O método deste tipo de trabalho é muito simples mas requer muita energia porque a pessoa é capaz de passar mais de 8 horas a caminhar, e se não tiver dinheiro ou não tiver trazido comida de casa, pode passar essas mesmas horas sem se alimentar. E o condutor que nos leva ao local, não tem a obrigação nem ajuda no caso destas situações acontecerem. Requer serenidade e não ser-se herói, se por acaso calhar fazer publicidade em bairros desfavorecidos ou problemáticos, a gente tem de la entrar, locais onde por vezes nem a policia entra, e todos sabemos porque. Sim, fazer publicidade porta a porta nos locais errados pode correr muito mal.

Chegado ao local, saíamos todos da carrinha ou apenas uma pessoa, dependendo da dimensão do local, era nos dado um calhamaço pesado de folhas que passado umas horas já começa a doer nos bracos, e tínhamos de seguir uma linha estratégica de caminhos por onde passar para que nenhuma porta ou casa faltasse (neste caso caixas de correio), e todas tinham que ter papel. E durante quase todo o dia tínhamos que tocar ás campainhas, as pessoas perguntavam quem era pelo intercomunicador (quando havia), e nós respondíamos: “Publicidade! Podia abrir sff?” e lá abriam as portas de um prédio qualquer, entravamos e toca de carregar as caixas de correio com papel que nunca mais acabava.

Na maioria das vezes, e porque as pessoas já sabiam, havia nas caixas um autocolante amarelo ou de outro tipo como este que podem ver na imagem em baixo. As pessoas sempre detestaram receber publicidade nas caixas de correio. Na verdade muito pouca gente liga a isso e não querem nem gostam de receber carradas de papel que não precisam.

Era das coisas que a gente menos gostava, mas ainda assim haviam colegas meus que com ou sem autocolante como estes, ainda faziam pior, lol! E depois haviam queixas e multas para os patroes.

Haviam situações variadas onde por exemplo a gente entrava num prédio para fazer publicidade, e quando chegávamos cá fora, o carrinho do papel simplesmente tinha desaparecido (isto quando haviam carrinhos para transportar o papel)… Tinha sido roubado mesmo, e isso acontecia muito em bairros. E por vezes não era só o carrinho, era a carteira, o telemóvel, etc., e nós não tínhamos nenhum seguro ou até mesmo segurança ao desempenhar este trabalho.

De vez em quando colocavam-nos em aldeias, e eramos obrigados a andar quilómetros onde haviam casas afastadíssimas umas das outras junto á estrada. Ou seja, eram locais onde só se via uma casa depois de se andar uns bons minutos… E nem sempre tínhamos acesso ás caixas de correio, ás vezes nem nos atrevíamos a entrar em vivendas porque havia sempre um FDP de um cão que estava lá para nos atacar por sermos desconhecidos. E nas vivendas era normal.

As condições climáticas também não ajudavam muito na maioria dos casos. Ou estava Sol demais, ou chegávamos a casa encharcados como se tivéssemos tomado um duche com a roupa vestida porque tinha chovido a cântaros. E quando se faz este tipo de trabalho, os motoristas/encarregados da zona não nos deixam parar. Não importa qual o tempo que esteja nesse dia, esteja a chover ou não, esteja uma brasa ou não, a distribuição de publicidade nas caixas de correio tem de ser feita a todo o custo independentemente se no dia seguinte a pessoa fica doente ou não. Bem, para os patroes até era bom por um lado, assim não tinham que pagar aos distribuidores que tivessem de ficar em casa.

Eu trabalhei durante bastante tempo neste tipo de função. Obvio que eu não gostava mas tinha de ter dinheiro para comer e ir sobrevivendo o melhor possível. Recebíamos ao dia cerca de 20 euros mais ou menos e dava. Alguns pagavam menos.

Já com as listas telefónicas, na altura ‘Paginas Amarelas’ e TLP (Telefones de Lisboa e Porto), o cenário era bem diferente e muito melhor porque aí ganhávamos um dinheiro extra que era dado pelos clientes a quem trocávamos as listas, (entregávamos uma nova e colectávamos a antiga). Na maioria das vezes, ou quase sempre, havia alguém que nos dava 100 escudos na altura, ou 50 escudos que mesmo assim já era bastante dinheiro, e quando o Euro apareceu, as pessoas davam sempre 1 euro, 2, e se apanhássemos uma pessoa muito fixe mesmo, podíamos receber de 5 a 10 euros.

Ou seja, quando havia a distribuição de listas telefónicas todos ficávamos contentes. Não havia dia nenhum que não chegássemos a casa com o bolso cheio de trocos e notas. Tinhamos o suficiente para um maco de tabaco, café para quem bebia, e até podíamos carregar o telemóvel! Vejam só!

E esta foi uma forma então de eu ir um pouco mais a fundo, e explicar ás pessoas que não têm noção, o que realmente é fazer publicidade porta a porta. Não é fácil, não se gosta, mas infelizmente muitos têm de o fazer para poder ter algum dinheiro no bolso e começarem por alguma coisa.

A vida tem destas coisas!

Qual o seu grau de satisfação deste artigo?

Average rating 5 / 5. Vote count: 3

No votes so far! Be the first to rate this post.

Categorias: Blogue

Blog De Um Tuga

Criador do blogue "blogdeumtuga.com" fala e escreve sobre as suas experiências pessoais e aborda alguns assuntos de interesse dependendo do seu ponto de vista e opinião pessoal. Fotógrafo amador e blogger português. WordPress site designer. Locutor / Broadcaster.

0 comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Translate »